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MATÉRIAS ESPECIAIS | O enforcamento


A cerimônia de execução de um condenado à forca era prevista em seus mínimos detalhes pela legislação colonial portuguesa e foi descrita com fria precisão por um cronista da época.

Acontecia assim.

Durante três dias, o réu passava por um processo de purificação da alma e ficava confinado não em sua cela, mas no oratório anexo à prisão, sendo assistido dia e noite por três confessores, que dele se ocupavam em regime de revezamento. A comida que lhe serviam durante esse período vinha diretamente da Santa Casa e, embora fosse bastante leve, era de boa qualidade, tanto que os próprios padres dela compartilhavam.

No dia da execução, o carrasco chegava cedo e cuidava pessoalmente de vestir o réu enquanto todos os seus confessores, reunidos, diziam em voz alta as orações devidas por sua alma pecadora.

Era uma ocasião de grave solenidade.

Formava-se um grande cortejo, que deixava o pátio da prisão precedido em cerca de duzentos metros por um destacamento da Infantaria. À frente vinham os Oficiais da Coroa - lendo em voz alta a sentença que ia ser cumprida - e o Juiz com seu imponente manto de seda preta e o formidável chapéu de pena à moda de Henrique IV.

Após os doutos representantes da Lei, seguia a bandeira da Irmandade de Misericórdia, secundada por dois grandes candelabros e por uma dezena de irmãos, um dos quais carregando um grande crucifixo entre as mãos amarradas juntas.

O réu aparecia logo depois, envergando um dominó branco com o capuz virado para trás e amparado por dois de seus confessores. Ficava bem visível em seu pescoço o laço das duas cordas que o envolviam – uma grossa e a outra mais fina. Dois carrascos acompanhavam esse pequeno grupo. Um ficava atrás do réu, segurando a longa cauda do dominó e a ponta das duas cordas enroladas. O outro carregava ao ombro um grande saco com dois portentosos facões, que mais tarde, finda a execução, seriam usados para cortar as cordas e liberar o corpo.

Dois Oficiais de Justiça escoltavam os carrascos. Eram negros do Tribunal, carregavam foices afiadas e estavam por sua vez acompanhados de dois outros negros - aos quais cabia levar um banquinho de madeira e um grande cesto contendo comida.

Um segundo destacamento de Infantaria fechava a retaguarda.

O cortejo seguia para o local da execução em passo comedido. O itinerário passava, necessariamente, diante de uma igreja, onde fazia uma parada para que o réu pudesse assistir à missa. Antes da elevação da hóstia, contudo, ele era retirado da cerimônia: não lhe cabia receber o perdão D’aquele que, por Sua carne dilacerada e por Seu sangue derramado, a todos perdoou.

Ele não merecia o perdão – não nessa vida, pelo menos.

Chegando ao local da execução, o réu era sentado no banquinho que um dos negros da escolta dos Oficiais de Justiça tinha trazido até ali. Diante dele, de modo a que não visse a forca de frente, assentavam a bandeira da Irmandade de Misericórdia. Em voz alta, liam uma vez mais a sentença, e só então os padres se aproximavam e ofereciam alimento. Era um ato simbólico de caridade que não demorava muito e, quando terminava, dois confessores conduziam-no amavelmente até o inicio dos degraus da forca e lhe apresentavam o crucifixo para ser beijado uma última vez.

Feito isso, os religiosos se retiravam para perto dos pilares da forca. Um dos confessores, mais os dois carrascos, ajudavam o réu a subir de costas a escada do patíbulo até que o penúltimo degrau fosse alcançado. Com rapidez e habilidade, um dos carrascos subia então pelas travessas e ali amarrava firmemente as cordas atadas ao pescoço do réu, enquanto seu colega de ofício, postado embaixo da escada, fazia o mesmo com as pernas dele.

A operação toda não durava mais que dois minutos, e durante esse tempo o confessor não parava de exortar o réu ao arrependimento. Quando o capuz era finalmente abaixado sobre o rosto deste, o confessor voltava-se para o povo reunido e conclamava para que todos se unissem e clamassem misericórdia pela alma daquele irmão padecente.

Alheio a essa invocação, o carrasco que havia subido pelas travessas do patíbulo para ali amarrar as cordas colocava-se a cavalo sobre os ombros do réu, ao mesmo tempo em que seu companheiro erguia-lhe as pernas e o fazia precipitar-se da escada, girando.

Ouvia-se nitidamente o estalo seco da coluna cervical sendo partida, o condenado estertorava um pouco e logo em seguida tudo estava acabado.

Quando desciam o corpo, membros da Irmandade de Misericórdia procediam a um rápido exame, de modo a determinar se o réu estava realmente morto – se não estivesse, ele poderia ser tratado e estaria para todo sempre livre.

Mas nunca se soube de alguém digno de tal milagre.

E tal milagre de fato não aconteceu naquela manhã de 10 de novembro de 1685, quando enforcaram Manuel Beckman, o Bequimão, no patíbulo armado na Praia Pequena, aonde quase toda a população de São Luís à época veio assistir a execução do grande líder da primeira revolta nativista contra o domínio português que o Brasil teve notícia.


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