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MATÉRIAS ESPECIAIS | O massacre dos teramembeses


O testemunho a seguir, reproduzido na íntegra e apenas com a necessária atualização ortográfica, foi deixado pelo padre jesuíta João Felipe Bettendorf (1625-1693), e sob muitos aspectos é um documento revelador da visão de mundo típica do homem do século XVII – fosse ele católico ou não.

Para a fina sensibilidade de um cidadão do século XXI, o zelo religioso do bom padre, que vibra intensamente em cada uma das palavras de seu testemunho, talvez seja passível de causar horror – afinal, ele aceita com naturalidade a tortura e a execução de centenas de pessoas, preocupando-se apenas e tão-somente com a conversão das mesmas à verdadeira fé católica. Mas é preciso contextualizar o tempo em que Bettendorf viveu e as convicções daquele século conturbado: não é demais lembrar que, longe das selvas do Novo Mundo, a tão civilizada Europa da época havia mergulhado alegremente na barbárie que foi a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), e sem sombra de dúvida muitos dos nobres e soldados que dela participaram seriam atualmente julgados e condenados em Tribunais Internacionais, acusados de genocídio e crimes de guerra, mas foram então saudados como heróis.

Cada século tem seus fantasmas e mortos destroçados por convicções que, depois, não fazem o menor sentido.

O julgamento da posteridade sempre chega tarde demais para as vítimas e os algozes...

Bettendorf fala.

Tinha-se perdido uma nau que vinha do Brasil, em os baixios de São Roque, por perto do Ceará, e tinham escapado uns poucos de naufragantes daquele triste naufrágio em uma jangada ou balsa, em que além de suas pessoas traziam umas cousinhas de seus fatos com algum sustento da vida; estes vieram a dar consigo depois de uns poucos dias em riba da praia meio mortos de fome, e trabalhos que as ondas do mar lhes tinham dado. Estavam lá acaso uns teramembeses que continuamente correm aquelas praias, os quais que logo que os viram tão desfeitos deram sobre eles e os mataram cruelmente a todos, levando tudo quanto traziam consigo. Feita esta tirânica e bárbara ação, vieram-se direto ao Maranhão, mui confiados, vendendo pelas roças e cidade algumas cousas, as quais do feitio logo se conheceram ser das ilhas, e como já se sabia por fama do naufrágio acontecido em os baixos de São Roque, suspeitou-se que sem dúvida nenhuma estes teriam morto alguns naufragantes. Fundada em tal suspeita, mandou-os prender a justiça a todos, assim mulheres como homens; examinados por língua de sua nação, achou-se ser verdadeiro o que deles se tinha suspeitado, pelo que todos foram condenados à morte, tirando uma mulher com sua cria. Eu então, como reitor do colégio, tratei logo de ensiná-los, mas como eram bárbaros e mui agrestes, acabei somente de ensinar a mulher para batizá-la com a criança, como foi feito; depois, como eu estava ocupado com as cousas do meu ofício, continuou a ensiná-los o padre superior da missão, Pero Luís, animando os que, visto serem condenados à morte, tratassem de sua salvação, e batizar-se para escaparem do fogo do Inferno e irem gozar de Deus em o Céu; obedeceram e, depois de muito bem doutrinados, se lhes deu a todos a água do santo batismo, exceto um velho, o qual havia de ir com a tropa por língua, e por isso não necessitava de tanta pressa. Estava entre eles um mocetão que seria de idade de dezoito anos, pouco mais ou menos; este me tinha rogado que lhe perdoasse a vida, porquanto era filho de um grande principal, nem tinha ainda conhecido mulher, nem também tivera parte alguma em a morte dos náufragos, mas vinha somente em companhia dos matadores sem mais ânimo que de ir em companhia deles ao Maranhão, oferecendo-se juntamente a ser escravo dos padres para os servir toda a sua vida. Compadecendo-me deste belo mancebo, assim por sua nobreza, como principalmente por sua rara castidade e inocência em o caso, quanto me parecia, intercedi por ele; mas como Deus Nosso Senhor o queria salvar por esta via, permitiu que o velho parecesse mais idôneo para o fim que se pretendia com ele; e assim instruídos de novo todos e aparelhados em bons e famosos atos de fé, esperança e caridade, e contrição, pelo padre superior da missão, se mandaram depois de batizados cavalgar sobre dois bancos, postos à boca de duas peças carregadas, e foi cousa digna de reparo que estando já cavalgados sobre os bancos, um deles chamou o padre superior, pedindo-lhe o instruísse um pouco melhor, o que fez, dando-se depois disso, logo, ao mesmo tempo, fogo a ambas as peças carregadas de balas, com que voaram em um fechar de olhos pelos ares, feitos em pedaços. Assistiu a irmandade da Santa Misericórdia com a sua bandeira, a qual logo recolheu os pedaços e os foi enterrar com muita piedade. Costumava dizer o padre Pedro Poderoso, o qual, como missionário das serras de Ibiapaba, tinha tratado muito com os teramembeses, sem nunca poder converter um só deles à nossa Santa Fé, que lhe parecem que eram precitos todos, porém mostrou-se que por essa ocasião não tivemos, o padre superior da missão e eu, longe de ajudar a salvação ao menos de alguns.

 

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