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MATÉRIAS ESPECIAIS | Testamentos

Ao publicar, em 1949, o monumental O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Felipe II, o francês Fernand Brandel não apenas legou ao mundo um dos poucos marcos definitivos da historiografia do século XX como também fixou as bases para que a própria História fosse entendida dentro de um novo conceito.

A tese desenvolvida no livro, considerado clássico desde o seu lançamento, é brilhantemente provocadora. Em primeiro lugar, contrapunha-se à então ascendente historiografia marxista, firmada no conceito de lutas de classes. Para Brandel, a luta de classe é apenas um dos elementos, e não o motor da História. Depois, rejeitava com bastante contundência a idéia - ainda forte no meio acadêmico da época - da História como uma sucessão de fatos retilíneos onde as condições sociais eram deixadas de lado. Fugindo desse raciocínio simplista, ele propôs que a História se desenvolve em três grandes tempos: o geográfico, de longa duração, onde ocorrem as transformações quase imperceptíveis, que envolvem mudanças demográficas, climáticas e físicas, e onde começam e terminam as civilizações; o dos ciclos econômicos, de média duração; e finalmente o das oscilações políticas, do cotidiano onde as pessoas vivem e morrem e onde todos os dramas humanos se desenrolam. Ao unir esses três tempos, Brandel chegou à surpreendente concepção da História total.

O resultado é espantoso. Pelas quase 1.500 páginas do livro, são descritas não apenas as políticas dos grandes impérios mundiais da época de Felipe II, mas rios e montanhas, rotas comerciais, utensílios domésticos, modos de vida. Para Brandel, no dia a dia é estão presentes os fatos a serem buscados para se firmar com maior nitidez o perfil de uma era - e esses fatos decorrem dos homens e mulheres que nela viveram: seus preconceitos, suas verdades, as relações sociais mantidas, a moral professada, enfim, todos os elementos necessários a que se entenda como eles se relacionavam entre si.

Este denso conteúdo da vida diária, responsável pela formação de uma das superestruturas em que a História se desenvolve, segundo a teoria de Brandel, pode ser abordado de diversas formas e obtido em diversos meios - um dos quais, indiscutivelmente privilegiado: os testamentos, a expressão da vontade de homens e mulheres típicos de seu tempo, os quais deixaram para a posteridade o testemunho escrito de seus medos, de seus desejos e de sua forma de pensar.

É da fonte primária fornecida pelos testamentos que se confirma, por exemplo, que em São Luís do Maranhão, até fins do século XVIII, o pleno reconhecimento da importância social de alguém estava em ser consentido o seu sepultamento dentro de uma igreja, ao invés de nos cemitérios existentes ao lado dos templos. Ou que a medida da riqueza de uma pessoa, a despeito de já existir moeda corrente circulando, era expressa em rolos de pano.

Da mesma maneira, sabe-se que nessa sociedade as roupas, toalhas de mesa, lençóis e colchas eram tecidos a mão, num trabalho demorado, árduo e, portanto, bastante oneroso, constituindo-se em bens de grande valor a serem deixados aos herdeiros de direito, assim como os utensílios de casa e os escravos.

Sob qualquer ótica que se veja, fica bastante claro que doar esses bens tão preciosos como esmolas para as festas da Igreja, ladainhas ou para as obras de caridade - ou simplesmente libertá-los, no caso dos escravos, mediante a promessa de serem rezadas missas em favor da alma de seu ex-senhor ou de sua ex-senhora -, constituía-se num ato de extrema contrição, numa valiosa carta de seguro contra o fogo do Inferno. E sim: a crença no Purgatório era tão arraigada que mesmo os habitantes de São Luís, a maior parte deles, nos primeiros anos da colônia, pobres e rudes açorianos que várias vezes haviam se insurgido contra os padres jesuítas, cuja ordem religiosa opunha-se terminantemente à escravidão dos índios - índios considerados imprescindíveis para o trabalho escravo nas roças, onde sempre faltavam braços -, procuravam dele se afastar a todo custo, inclusive apelando para essa mal disfarçada espécie de compra de indulgência.

Revelações dessa natureza, entre tantas outras, são preciosas para que se entenda um pouco mais a psicologia social das pessoas que habitaram a São Luís colonial, seus desdobramentos e as consequências daí resultantes. Nesse sentido, mais que o testemunho de vontades, os testamentos se constituem em pontes imprescindíveis para que se cruze a imensa distância dos anos e se compreenda um pouco melhor o passado, transformando-o em território conhecido, uma espécie de tempo reencontrado.

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